A frase é da juíza Vanessa Cavalieri, da 1ª Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, que há dez anos acompanha casos de adolescentes envolvidos em atos infracionais. Para ela, a entrada precoce desses jovens no crime evidencia o fracasso do Estado em oferecer alternativas reais.
O debate voltou à tona após a operação que deixou 121 mortos no Rio, incluindo dois adolescentes. Outros dez menores foram apreendidos, reforçando o alerta sobre o avanço do recrutamento juvenil pelo tráfico. Segundo Cavalieri, a escolha desses jovens não é motivada por glamour, mas por ausência de oportunidades.
“É trabalho, ainda que ilegal, porque oferece renda e pertencimento que o Estado não oferece”, afirma.
A juíza destaca um dado que considera fundamental: 95% dos adolescentes atendidos não têm pai presente. A ausência paterna, somada à sobrecarga materna, impacta desde o suporte emocional até o acompanhamento escolar. Ela explica que muitos desses jovens já nascem em ambiente de vulnerabilidade, marcado por falta de renda estável, baixa escolaridade e ausência de planejamento familiar.
“Abandonou a escola; na semana seguinte está no tráfico”, resume.
Cavalieri também contesta discursos comuns nas redes sociais, como a ideia de que mães têm muitos filhos por causa do Bolsa Família. “Em muitos casos, elas nem recebem o benefício. E quando o adolescente entra para o tráfico, o benefício é cancelado.”
Para a magistrada, o tráfico usa adolescentes como mão de obra barata e descartável. Jornadas de até 12 horas rendem valores baixos — como R$ 200 para quem atua como “radinho”. Quando esses jovens são apreendidos, o processo deveria ser uma chance de recomeço, mas o Estado frequentemente falha em oferecer educação, assistência e profissionalização.
“Eles pedem vaga de jovem aprendiz, mas sei que para 90% não vou conseguir.”
Ela critica, ainda, escolas que rejeitam estudantes e relata casos de jovens que só conseguiram emprego após alterar o CEP do currículo. Para Cavalieri, o enfrentamento ao problema exige ação coletiva.
“Nenhum país resolve isso sozinho. O empresário precisa entender que o jovem da comunidade também é sua responsabilidade.”



