Por Pastor Cleber Vieira
Quem matou Jesus?
Jesus não foi crucificado porque roubou, matou ou praticou qualquer crime. Foi levado à cruz sendo inocente.
Sua condenação expõe uma das alianças mais perigosas da história: quando a religião negocia seus princípios com o poder político para proteger interesses, posições e privilégios.
Jesus incomodava.
Incomodava porque não podia ser comprado.
Incomodava porque não negociava a verdade.
Incomodava porque denunciava a hipocrisia.
Incomodava porque confrontava estruturas religiosas.
Incomodava porque sua autoridade não dependia da aprovação dos poderosos.
Caifás era sumo sacerdote em uma Judeia submetida ao domínio romano. Quando Jesus começou a atrair multidões, determinadas lideranças passaram a enxergá-lo não apenas como um problema religioso, mas também como uma ameaça aos seus espaços de influência.
O próprio Evangelho registra a preocupação:
“Se o deixarmos assim, todos crerão nele; depois virão os romanos e tomarão o nosso lugar e a nação.” (João 11:48)
Preste atenção em uma expressão: “o nosso lugar”.
Quando preservar “o nosso lugar” se torna mais importante do que preservar a verdade, a religião começa a se corromper.
Caifás então declarou que seria conveniente que um homem morresse pelo povo (João 11:49-50).
A verdade passou a ser tratada como ameaça.
Mas a crucificação era uma execução sob a autoridade romana. Jesus foi levado a Pôncio Pilatos, e as acusações contra ele ganharam também dimensão política.
Pilatos declarou não encontrar culpa em Jesus. Ainda assim, acabou autorizando sua crucificação.
A religião pressionou. O poder político autorizou. E um inocente foi para a cruz.
Essa história atravessou os séculos e continua trazendo uma séria advertência para a Igreja.
O problema não está no cristão participar da política. O cristão é cidadão e tem direito de participar da vida pública, votar, ser votado e defender aquilo em que acredita.
O perigo começa quando o púlpito deixa de anunciar princípios para defender interesses; quando líderes deixam de confrontar o poder para receber favores dele; quando a consciência é negociada por cargos, dinheiro, influência ou proximidade com governantes.
A Igreja não pode ser curral eleitoral.
O altar não pode virar palanque.
O Evangelho não pode receber número de partido.
O pastor não pode trocar sua voz profética por uma cadeira à mesa dos poderosos.
Políticos passam.
Partidos passam.
Governos passam.
Mandatos terminam.
Impérios desaparecem.
Mas a Palavra de Deus permanece.
Por isso, a história da crucificação não deve servir apenas para apontarmos o dedo para Caifás ou Pilatos.
Ela deve funcionar como um espelho.
Existe uma pergunta muito mais desconfortável:
Se Jesus entrasse hoje em nossas igrejas, confrontasse nossos interesses, denunciasse nossos acordos com o poder e se recusasse a participar dos nossos projetos pessoais, nós ficaríamos ao lado de Cristo — ou procuraríamos um novo Caifás para silenciá-lo?
Essa é uma pergunta que todo púlpito deveria ter coragem de responder.
Caifás passou.
Pilatos passou.
O Império Romano passou.
Jesus permanece.
E o túmulo vazio deixou uma mensagem para todos os poderes deste mundo:
A verdade pode ser perseguida.
A verdade pode ser condenada.
A verdade pode até ser crucificada.
Mas a verdade não permanece no túmulo.
Pastor Cleber Vieira
Formação:
Formação Pastoral pela Faculdade Gospel Internacional – MG.
Bacharel em Teologia pela FATIM – PE.
Pós-graduação em Jornalismo pela Faculeste – MG.


