História de Karina Lopes de Bonfim para Itália

Da menina da rádio em Senhor do Bonfim aos estádios da Itália: uma história que o futebol guardou

Aos 16 anos, em Senhor do Bonfim, no interior da Bahia, eu fiz uma brincadeira que acabou mudando a minha vida.

Disse a um profissional de rádio que queria ser locutora.

Ele poderia ter rido e deixado passar. Mas acreditou em mim.

Levou a sério a minha brincadeira, me levou para a rádio, fez um teste e, naquela mesma semana, eu já estava diante dos microfones.

Foi assim que começou uma das histórias mais mágicas da minha adolescência.

Eu trabalhava no rádio e também como repórter esportiva. Ia aos estádios, entrevistava jogadores, torcedores e acompanhava os jogos de perto.

Minha camiseta da rádio e o meu crachá eram quase um passe livre.

Eu tinha 16 anos e entrava nos estádios com aquela sensação maravilhosa de que o mundo estava se abrindo diante de mim.

Mas havia também o trabalho que acontecia longe das arquibancadas.

Naquela época, não existiam internet, celular ou a facilidade de acompanhar qualquer partida em tempo real. O narrador ficava no estádio transmitindo o jogo, enquanto eu permanecia no estúdio da rádio, em Senhor do Bonfim, tentando captar informações das partidas que aconteciam pelo Brasil e pelo mundo.

E era uma aventura.

Eu ficava tentando sintonizar várias frequências ao mesmo tempo, procurando transmissões de outras rádios. Era preciso ter ouvido, paciência e muita atenção.

Quando acontecia um gol, eu anotava rapidamente as informações e passava para o narrador.

Era mais ou menos assim:

— “Olha o gol!”

— “Gol onde?”

E eu respondia:

— “Gol em tal lugar. Jogador tal. Tantos minutos do primeiro tempo…”

Eu acompanhava jogos de vários lugares do mundo. E, entre tantos nomes que chegavam até mim através daqueles rádios difíceis de sintonizar, havia um que eu ouvia com frequência:

Udinese.

Udinese. Udinese. Udinese.

Naquela época, eu jamais poderia imaginar que um dia estaria na Itália, dentro de um estádio, assistindo ao vivo a uma partida entre Barcelona e Udinese.

Muito menos que estaria ali acompanhada dos meus filhos.

Eles jogam futebol em um pequeno clube do Veneto. E foram justamente eles que me fizeram voltar aos estádios.

Através do futebol deles, reencontrei uma parte de mim que havia ficado guardada durante muitos anos.

Ontem, estávamos juntos na arquibancada, no meio de mais de 25 mil pessoas, assistindo à partida.

E, em algum momento, eu olhei para os meus filhos e pensei naquela menina de 16 anos em Senhor do Bonfim.

A menina da camiseta da rádio.

Do crachá pendurado no pescoço.

Que entrava nos estádios para entrevistar jogadores e torcedores.

Que corria atrás das informações.

Que passava horas tentando sintonizar rádios de outros lugares do mundo para descobrir onde havia acontecido um gol.

Aquela menina não poderia imaginar a quantidade de caminhos que a vida ainda abriria.

Nem poderia imaginar que, décadas depois, estaria na Itália, diante da torcida da Udinese, ouvindo ao vivo aquilo que um dia chegou até ela através de uma frequência de rádio difícil de captar.

Ontem, mandei uma foto para aquele homem que acreditou em mim aos 16 anos.

O homem que poderia ter levado minha brincadeira como apenas uma brincadeira, mas preferiu acreditar.

Mandei a foto e escrevi:

“Olha só onde estou. Lembrando dos velhos tempos.”

Ele me pediu para escrever essa história.

E talvez seja por isso que ela tenha me emocionado tanto.

Porque percebi que algumas histórias não terminam quando deixamos para trás uma profissão, uma cidade ou uma fase da vida.

Elas ficam dentro da gente.

Esperando uma oportunidade para voltar.

E os meus filhos me deram essa oportunidade.

Foram eles que me levaram novamente aos estádios.

Eles, que hoje jogam futebol em um pequeno clube do Veneto, me fizeram reencontrar aquela menina que amava estar perto do campo, ouvir a torcida, entrevistar pessoas e contar histórias.

Ontem, eu não estava trabalhando.

Não tinha microfone.

Não tinha crachá.

Não precisava descobrir onde tinha acontecido o gol.

Eu estava simplesmente na arquibancada.

Com os meus filhos.

E talvez essa seja uma das voltas mais bonitas que a vida poderia ter dado.

Aos 16 anos, eu entrava nos estádios porque tinha uma credencial.

Hoje, tantos anos depois, voltei a eles porque meus filhos me deram uma nova credencial:

a de mãe de dois meninos apaixonados por futebol.

E aquela menina ainda está aqui.

Só mudou o lugar.

Antes, ela ouvia o futebol pelo rádio.

Hoje, ela está na arquibancada.

E continua encantada.

Àquele que acreditou em mim aos 16 anos, fica a minha gratidão.

Você talvez não soubesse naquele momento, mas aquele teste abriu uma porta que eu carregaria comigo por toda a vida.

E ontem, diante de mais de 25 mil pessoas, eu percebi:

aquela porta nunca se fechou.

A menina da rádio continua aqui.

E ainda ama futebol. ⚽️❤️

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